Dependência Química
- 1 de jul. de 2016
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A dependência de substâncias psicoativas (álcool e drogas) é uma síndrome médica bem definida internacionalmente, cujo diagnóstico é realizado pela presença de uma variedade de sintomas que indicam que o indivíduo consumidor apresenta uma série de prejuízos e comprometimentos devido ao seu consumo. É considerada doença crônica, tal qual a hipertensão arterial e o diabetes, e como tal acompanha o indivíduo por toda sua vida. Como toda doença crônica, o tratamento é voltado para a redução dos sintomas, que afetam não apenas o paciente, mas toda a comunidade ao seu redor; períodos de controle da enfermidade são observados no tratamento, mas uma das características fundamentais é o retorno de toda a sintomatologia (recrudescências ou recaídas) em alguns períodos da vida do indivíduo. Apesar dos prejuízos que o indivíduo passa a apresentar pelo uso de drogas, outra característica fundamental da dependência é o fato do sujeito ainda assim manter o consumo ou frequentemente a este retornar. Perde-se, parcial ou totalmente, a capacidade de controlar o uso, a droga passa a controlar a rotina do indivíduo. A definição como “síndrome” implica uma série de sintomas que não necessitam estar todos presentes ao mesmo tempo para o diagnóstico ser realizado. Este fato implica uma variedade de quadros clínicos que se apresentam aos diferentes serviços de atendimento, garantindo as diferenças individuais entre os pacientes dependentes.
A dependência encontra-se classificada mundialmente entre os transtornos psiquiátricos, embora suas repercussões abranjam áreas de funcionamento não circunscritas à Medicina (social, psicológica, legal e criminal, educacional etc.). O tratamento deste transtorno psiquiátrico deve, portanto, incluir aspectos comuns a todos indivíduos acometidos (aspectos comuns da população de dependentes), bem como aspectos individualizados (particulares) de cada paciente. Neste texto focalizaremos alguns dos principais “aspectos comuns” dos tratamentos, chamando-os de ASPECTOS BÁSICOS.
Uma primeira questão emergente sobre este tema delicado se impõe: por que tratar? O tratamento de dependentes químicos como conheceu hoje em dia, já tem um longo percurso. O tratamento é uma das formas de minimizar os prejuízos que costumam ocorrer na vida do indivíduo, de seus familiares, de seus vizinhos e possíveis empregadores, do município onde este reside, enfim, da comunidade em que vive, de seu Estado bem como de seu País.
Os custos da dependência incluem gastos pessoais e familiares, do sistema de saúde, de perdas laborais, de redução de impostos, do sistema judicial e correcional, de serviços policiais, exercendo um peso importante no orçamento nacional. Tratar a dependência significa investir para a redução destes gastos já citados, e a literatura científica internacional vem repetidamente apresentando os resultados positivos deste investimento.
Os resultados do tratamento mais frequentemente citados são a redução do consumo de substâncias, a diminuição na utilização de sistemas de saúde e a menor participação em comportamentos ilícitos, associados direta e indiretamente ao uso de drogas e álcool.
O tratamento da síndrome de dependência necessita, também, abranger todas as áreas de impacto do consumo sobre a vida do paciente. Como suas consequências, como discutimos acima, é de diferentes dimensões, uma abordagem multiprofissional passa a ser necessária para que o tratamento seja realmente eficaz.
Algumas definições são necessárias para evitar confusões. O presente texto utiliza estas definições para descrever os diversos instrumentos que são empregados no tratamento da dependência de substâncias psicoativas. Chamaremos de TRATAMENTO o “conjunto de meios terapêuticos que lança mão o médico (ou a equipe médica) para cura de doença ou alívio do paciente”, de acordo com a definição encontrada no dicionário Michaelis. O tratamento consiste na elaboração de determinada estratégia para obtenção de seus objetivos (ESTRATÉGIA – Ato de dirigir coisas complexas). Também é uma forma de INTERVENÇÃO (Intercessão, mediação) para obtenção de cura ou alívio para o paciente. Estratégias e intervenções lançam mão de modalidades e terapias: MODALIDADE – Cada aspecto ou diversa feição das coisas; TERAPIA– Parte da Medicina que se ocupa da escolha e administração dos meios para curar doenças ou obter alívio do indivíduo acometido. Cada uma destas possui sua própria forma de atuação, ou método (MÉTODO – Conjunto dos meios dispostos convenientemente para obtenção de um fim Modo de proceder.)
CLASSIFICAÇÃO DO USO DE DROGAS SEGUNDO A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE:
Uso na vida: o uso de droga pelo menos uma vez na vida.
Uso no ano: o uso de droga pelo menos uma vez nos últimos doze meses.
Uso recente ou no mês: o uso de droga pelo menos uma vez nos últimos 30 dias.
Uso frequente: uso de droga seis ou mais vezes nos últimos 30 dias.
Uso de risco: padrão de uso que implica alto risco de dano à saúde física ou mental do usuário, mas que ainda não resultou em doença orgânica ou psicológica.
Uso prejudicial: padrão de uso que já está causando dano à saúde física ou mental.
QUANTO À FREQUÊNCIA DO USO DE DROGAS, SEGUNDO A OMS, OS USUÁRIOS PODEM SER CLASSIFICADOS EM:
Não usuário: nunca utilizou drogas;
Usuário leve: utilizou drogas no último mês, mas o consumo foi menor que uma vez por semana;
Usuário moderado: utilizou drogas semanalmente, mas não todos os dias, durante o último mês;
Usuário pesado: utilizou drogas diariamente durante o último mês.
A OMS CONSIDERA AINDA QUE O ABUSO DE DROGAS NÃO PODE SER DEFINIDO APENAS EM FUNÇÃO DA QUANTIDADE E FREQUÊNCIA DE USO. ASSIM, UMA PESSOA SOMENTE SERÁ CONSIDERADA DEPENDENTE SE O SEU PADRÃO DE USO RESULTAR EM PELO MENOS TRÊS DOS SEGUINTES SINTOMAS OU SINAIS, AO LONGO DOS ÚLTIMOS DOZE MESES:
Forte desejo ou compulsão de consumir drogas;
Dificuldades em controlar o uso, seja em termos de início, término ou nível de consumo;
Uso de substâncias psicoativas para atenuar sintomas de abstinência, com plena consciência dessa prática;
Estado fisiológico de abstinência;
Evidência de tolerância, quando o indivíduo necessita de doses maiores da substância para alcançar os efeitos obtidos anteriormente com doses menores;
Estreitamento do repertório pessoal de consumo, quando o indivíduo passa, por exemplo, a consumir drogas em ambientes inadequados, a qualquer hora, sem nenhum motivo especial;
Falta de interesse progressivo de outros prazeres e interesses em favor do uso de drogas;
Insistência no uso da substância, apesar de manifestações danosas comprovadamente decorrentes desse uso;
Evidência de que o retorno ao uso da substância, após um período de abstinência, leva a uma rápida reinstalação do padrão de consumo anterior.
ALGUMAS DEFINIÇÕES
Experimentador: pessoa que experimenta a droga, levada geralmente por curiosidade. Aquele que prova a droga uma ou algumas vezes e em seguida perde o interesse em repetir a experiência.
Usuário ocasional: utiliza uma ou várias drogas quando disponíveis ou em ambiente favorável, sem rupturas (distúrbios) afetiva, social ou profissional.
Usuário habitual: faz uso frequente, porém sem que haja ruptura afetiva, social ou profissional, nem perda de controle.
Usuário dependente ou usuário de abuso: usa a droga de forma frequente e exagerada, com rupturas dos vínculos afetivos e sociais. Não consegue parar quando quer.
Usuário crônico: quando a pessoa não consegue largar a droga, porque o organismo acostumou-se com a substância e sua ausência provoca sintomas físicos (quadro conhecido como síndrome da abstinência ), e/ou porque a pessoa acostumou-se a viver sob os efeitos da droga, sentindo um grande impulso de usá-la com frequência ("fissura").
Escalada: é quando a pessoa passa do uso de drogas consideradas "leves" para as mais "pesadas", ou quando, com uma mesma droga, passa de consumo ocasional para consumo intenso.
Tolerância: quando o organismo se acostuma com a droga e passa a exigir doses maiores para conseguir os mesmos efeitos.
Poliusuário: pessoa que utiliza combinação de várias drogas simultaneamente, ou dentro de um curto período de tempo, ainda que tenha predileção por determinada droga.
Overdose: dose excessiva de uma droga, com graves implicações físicas e psíquicas, podendo levar à morte por parada respiratória e/ou cardíaca.












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